black & white

Sem querer parece que desenhei as Lauras Palmers do Twin Peaks . Muitas vezes quando se desenha sem saber ao certo o quê percebemos depois que estávamos realmente a desenhar uma coisa. É o inconsciente a ditar as  suas leis. Basta abrir-lhe as portas... ou como o David Lynch metaforicamente explica "pescar o peixe nas águas mais fundas".

                
vvvvvVVV
               IIIIIIIIIIiiiiiiiiiii
                                 ssssssSSSSSSSS
                                                          ÕÕÕÕÕÕ
                                                                         eeeeeeeeeees

"Were is the beauty? There is none if the eyes are soulless"



«Rises a smile from your eyes into mine»


"She lives the poetry she cannot write"


Oscar Wilde

(Fome)...

Vestida de  verde, vermelho e amarelo.
15-10-2012- Continuamos a querer mais humanidade, por isso estamos na rua (!) desta vez  frente à Assembleia da República.   

Para aquecer um pouco aqui fica uma pequena canção (não triste) do amigo "Tiger" e da amiga "Picnic" dedicada com alguma estima ao nosso "Presidente" da "República".

Recordar os Amantes da Ponte Nova, de Leo Carax (1991). 
Desenho de Juliette Binoche.
Um pedaço do filme:
             
                                      

(Eu vou sem ser visto)

O Paulo

A renúncia é a libertação. Não querer é poder.

Que me pode dar a China que a minha alma me não tenha já dado? E, se a minha alma mo não pode dar, como mo dará a China, se é com a minha alma que verei a China, se a vir? Poderei ir buscar riqueza ao Oriente, mas não riqueza de alma, porque a riqueza de minha alma sou eu, e eu estou onde estou, sem Oriente ou com ele.
Compreendo que viaje quem é incapaz de sentir. Por isso são tão pobres sempre como livros de experiência os livros de viagens, valendo somente pela imaginação de quem os escreve. E se quem os escreve tem imaginação, tanto nos pode encantar com a descrição minuciosa, fotográfica a estandartes, de paisagens que imaginou, como com a descrição, forçosamente menos minuciosa, das paisagens que supôs ver. Somos todos míopes, excepto para dentro. Só o sonho vê com (o) olhar.
No fundo, há na nossa experiência da terra duas coisas — o universal e o particular. Descrever o universal é descrever o que é comum a toda a alma humana e a toda a experiência humana — o céu vasto, com o dia e a noite que acontecem dele e nele; o correr dos rios — todos da mesma água sororal e fresca; os mares, montanhas tremulamente extensas, guardando a majestade da altura no segredo da profundeza; os campos, as estações, as casas, as caras, os gestos; o traje e os sorrisos; o amor e as guerras; os deuses, finitos e infinitos; a Noite sem forma, mãe da origem do mundo; o Fado, o monstro intelectual que é tudo... Descrevendo isto, ou qualquer coisa universal como isto, falo com a alma a linguagem primitiva e divina, o idioma adâmico que todos entendem. Mas que linguagem estilhaçada e babélica falaria eu quando descrevesse o Elevador de Santa Justa, a Catedral de Reims, os calções dos zuavos, a maneira como o português se pronuncia em Trás-os-Montes? Estas coisas são acidentes da superfície; podem sentir-se com o andar mas não com o sentir. O que no Elevador de Santa Justa é universal é a mecânica facilitando o mundo. O que na Catedral de Reims é verdade não é a Catedral nem o Reims, mas a majestade religiosa dos edifícios consagrados ao conhecimento da profundeza da alma humana. O que nos calções dos zuavos é eterno é a ficção colorida dos trajes, linguagem humana, criando uma simplicidade social que é em seu modo uma nova nudez. O que nas pronúncias locais é universal é o timbre caseiro das vozes de gente que vive espontânea, a diversidade dos seres juntos, a sucessão multicolor das maneiras, as diferenças dos povos, e a vasta variedade das nações.

Transeuntes eternos por nós mesmos, não há paisagem senão o que somos. Nada possuímos, porque nem a nós possuímos. Nada temos porque nada somos. Que mãos estenderei para que universo? O universo não é meu: sou eu.

Livro do Desassossego por Bernardo Soares.


Imagem da capa de "As Aventuras de Fernando Pessoa, Escritor Universal..."

Aquando da elaboração do Universo sideral